quinta-feira, 22 de abril de 2010
Legitimidade do Ilegível
Escrevo nestas linhas tortas e tímidas que há tempos não se faziam presentes . Letras ilegíveis, pois apesar de tímidas se fazem estranhas a própria mão que corre vertiginosamente para psicografar algo sem nome.
Uso como apoio a vontade louca de sentir a beleza de ao nada ser ao certo e um livro intitulado de “O Mapa do Amor: como escolher a pessoa certa”. O destino também parece ser um livro um tanto irônico. Talvez seja como o Destino descrito por Neil Gaiman. Um perpétuo sem rosto que segura um livro por entre labirintos e cada página é aberta ao acaso..histórias repetidas para diferentes sujeitos. Resolvi escrever sobre as pessoas e acabei apoiando o papel em um livro que avalia a importância de uma pessoa pela sua média ponderada, zonas de verificação e mensuração de personalidade.
Eu queria falar de pessoas, das pessoas que entram no meu íntimo, no meu ser sendo a todo instante e que por vezes ajudam a legitimar o ilegível. As pessoas são espelhos, um enxergando a si próprio pelo outro. E ás vezes tudo parece conspirar para que se controle os músculos da face, o brilho no olhar. Se somos espelhos nem sempre sabemos o que o outro enxerga de si mesmo a partir de nós. É a dor e a delícia de não sabermos que tipo de espelho servimos para o outro.
Eu tento me explicar sobre porque certas pessoas servem de espelho para 10 kilos a mais de culpa que por vezes carrego como mochileira nômade ou os 10 kilos a menos de auto estima que procuro embaixo da cama como no dia em que quis esconder o bilhete da professora endereçado à mãe (eu fui pega no flagra). Tem espelhos que me deixam com raiva ao olhar minha imagem distorcida, justamente por querer que eu dê nome aos meus bois, que eu siga um padrão, que eu mensure meus sentimentos e minhas atitudes como orienta Anilton Amélio, autor do já descrito livro que envergonhadamente apoio por acidente o papel. (Só podia ser psicólogo!)
Na verdade eu queria escrever sobre aqueles espelhos que fazem eu enxergar “os lábios entreabertos e o sorriso nos olhos”. Eu queria porque meu âmago pede por isso. Mas como criança mimada que sabe andar de bicicleta mas não quer mais porque caiu de leve no chão eu não escreverei.
E isso tem a ver com as letras, com a letras que também legitimam o ilegível. As letras tortas não se fazem presente há tempos, exceto quando escrevo bilhetes de trabalho ou a ata da reunião. Estas letras que os outros não entendem ou que tomam outro significado; letra de médico, letra de criança.
Nas ultimas vezes que escrevi pedacinhos de mim para outro alguém o legível se tronou ilegítimo. Seja um bilhetinho endereçado à mais bela canção daquele instante, seja um poema meu dado de presente a quem fugi como bixo assustado dos espelhos que me foi dado e voltado após com miragens de coisas que ainda não vivi, as letras foram desperdiçadas. Aquilo que pulsava mais uma vez se foi; taparam-se os espelhos com velhos panos, o bilhete foi abandonado sobre a mesa do restaurante, o poema foi esquecido.
Eu queria escrever sobre pessoas e o que resta é a mim mesmo, nua em frente ao espelho. Eu queria escrever sobre os espelhos que dão vontade de parar de olhar para si, sair correndo e olhar o mundo lá fora. Tocar as folhas entre os dedos, sentir o vento e pisar descalço na grama. Nada de espelhos de circo, apenas é o que é naquele momento.
Eu escrevo uma vez para ter que ler mil vezes ou talvez nenhuma. Mas as letras serão eternas e o reflexo nada mais além do que vejo...efêmero.
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Um comentário:
Eu sempre admirei a maneira subliminar com que vc escreve...Inteligência multifocal!
rsrs to viajando no texto.
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