quarta-feira, 9 de julho de 2008

ESTRADA LIMÍTROFE

Ele é um homem bilíngue, de poucas palavras, produzidas sonoramente e que se misturam ao vento. Ele não precisa gritar sua dor, mas ela aparece por entre a fumaça. Ele sabe rir mas se o sorriso for inaudível e entre os lábios fechados saiba que nem todos os comentários são interessantes de serem entendidos, principalmente se as palavras vem entre os dentes e não pelos poros. Ele é um homem que gosta de mulheres, e às vezes gosta de mulheres que nem mesmo conhecia mas que uma tela de vidro lhe mostra imagens que diz o tempo todo que são bonitas. Ele quer defender o que é seu. Sua mulher, sua casa, seus filhos, os animais que cria. O seu pedacinho de chão...pedacinho....Se pergunta onde estão as placas que dizem o que é seu e o que é de outro, quem diz o que é de quem. Enquanto isso, no outro lado do seu mundo outros homens se perguntam como saber se você conquistou seu pedacinho no céu. Como saber se você vai pagar o aluguel ou se terá um pedacinho daquele escritório....."tomara que caiba minha mesa...tomara que caiba na minha mesa". Alguns homens são bilingues por necessidade de ampliar seu territorio profissional, outros para sobrevivência. Alguns homens pescam por prazer (mastercard), outros sonham em pescar o peixe que já não existe mais e por isso mesmo não tem preço. Alguns homens estão em salas de aula com 40 crianças, outros ministram aulas com a presença de 10 crianças e um cachorro. Alguns homens fumam cigarro pra aliviar o stress, outras fumam para acalmar o espírito e a relação com a mulher. Este homem está de um lado do asfalto enquanto outros estão de outro. Ño limite do asfalto, este homem nos faz perguntar quem é o dono do asfalto que separa vidas de outras vidas como se fosse uma coisa da outra coisada. Coisificados, este homem mostra que somos coisas com milhares de outras coisas. Coisificados, este homem pode nos revelar que pode ser qualquer um. Pode ser eu, você e ele porque ainda "somos todos brasileiros", mas definitivamente este homem que enxerga o asfalto pode ser Guarani.

*Coisa coisado é uma expressão rememorando o poema "Eu, etiqueta" de Luís Fernando Veríssimo.

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